O Impacto Psicológico do Câncer nos Jovens

Conseguir vencer um câncer é algo realmente fabuloso. Mas mesmo quando o tratamento foi um sucesso, a etapa seguinte pode oferecer certos desafios e uma adaptação emocional se faz necessária para continuar vivendo com qualidade. Apresento hoje uma breve reflexão sobre o impacto psicológico do câncer nos jovens.

 

O impacto do tratamento

Passar por um câncer já é algo difícil para um adulto, agora imagine um adolescente ou mesmo uma criança. No caso de sobreviventes do câncer pediátrico, é necessário a ajuda de profissionais que saibam delimitar uma nova abordagem para os diferentes processos que a criança precisa passar.

Escola, aprendizado, a necessidade de independência e até as relações, sejam familiares ou sociais, precisam ganhar novos contornos.

É importante saber que os próprios tratamentos contra o câncer causam efeitos colaterais cognitivos de longo prazo a ponto de necessitar da ajuda de um profissional. Esta possibilidade existe em todos os tipos de cânceres, mas em especial nos pacientes com tumores cerebrais ou leucemia. Nestes casos a irradiação, sendo tóxica, pode afetar as funções cognitivas, principalmente em jovens onde o cérebro ainda está a se desenvolver.

A força da experiência

A neuropsicóloga Natalie Kelly é apaixonada pela conexão entre cognição e funcionamento psicológico em jovens adultos. Ela realiza importante trabalho junto a um grupo de sobreviventes de câncer pediátrico cujas idades variam entre 18 a 30 anos.

Todos os pacientes deste grupo ficaram muito mal colocados em termos de sua trajetória típica de desenvolvimento.

Ela salienta que a volta de um sobrevivente às atividades normais, seja escola, faculdade ou trabalho, é sempre uma fase de adaptação extremamente delicada. Dentre as dificuldades, pode acontecer problemas de atenção e foco, processamento lento de informações e um certo comprometimento das funções executivas.

As funções executivas são as tomadas de decisão: planejamento, organização, identificação de prioridades, controle emocional e outras. As dificuldades de realizar estas funções podem tornar muito desafiador o processo de aprendizado e o reajuste geral para a vida diária.

O maior desafio é lidar com a realidade que as tarefas que já eram difíceis, se tornaram ainda mais difíceis. Exige paciência e aceitação. Componentes básicos da cognição como linguagem, memória e velocidade de processamento são necessários para praticamente tudo. Quando estes são afetados é normal que o aprendizado seja mais lento do que o costume.

 

A força do exemplo

O sistema funciona de forma muito organizada, cada vez que um paciente é encaminhado, Kelly realiza uma avaliação completa das funções cognitivas. Logo esta avaliação é comunicada ao paciente. Este recebe feedback detalhado sobre a natureza de qualquer deficiência e dificuldades detectadas e como elas se relacionam com o tratamento.

Kelly então usa as informações coletadas para desenvolver um plano de tratamento detalhado com o paciente. Este plano envolve a família, trabalhadores sociais e terapeutas ocupacionais. Todos trabalharão em conjunto para que a adaptação seja a melhor possível.

A escola ou o local de trabalho do paciente também precisa ser envolvida para que as descobertas e dificuldades sejam encaradas com naturalidade.

Mais do que apenas dificuldades de aprendizado

As mudanças na capacidade executiva também afetam a competência social das crianças e adolescentes. Interagir socialmente de forma bem sucedida pode se tornar um desafio e nesses casos a reintegração social se torna uma questão difícil.

Além de tudo isso, ainda existem os fatores físicos: dores prolongadas, fadiga e outras alterações fisiológicas, que fazem os sobreviventes precisarem muito do apoio da família. Para os que acabam se sentindo frustrados diante das dificuldades é recomendada a reabilitação vocacional.

O time de neuropsicólogos, terapeutas e assistentes sociais, munidos das informações necessárias, consegue bons resultados pois existe muito a ser feito no sentido de reintegrar estes sobreviventes.

De acordo com Kelly, a abordagem deve ser a mais natural possível. A situação de passar pelo câncer é sim terrível e não deve ser menosprezada, mas ao sobreviver ao câncer os problemas não acabam:

Você sobreviveu ao câncer e agora temos esses problemas. Mas há algo a ser feito. Há oportunidade para você. Há um lugar para você aqui neste mundo, e podemos descobrir que lugar é esse. Esse encorajamento e apenas saber que eles não têm que fazê-lo sozinhos é útil para eles

O importante é sempre manter a esperança, oportunizar a esperança para todos. Oferecer apoio e encorajamento para que saibam que não estão sozinhos já faz uma grande diferença.

O trabalho realizado nesse sentido abre portas de apoio e ajuda que estes pacientes por vezes nem imaginavam que precisariam ou poderiam ter. E essa possibilidade os faz enxergar outras possibilidades, como um mundo novo que, sem esta ajuda, não seria possível.

Dra Alessandra Morelle

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