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Por causa de alguns dos sintomas parecidos com os da gripe, é comum a percepção de que o Coronavírus seria um tipo de vírus da gripe (vírus Influenza), ou pelo menos um “parente”. Mas os mecanismos, a história evolutiva, e mesmo a estrutura e a forma como esses dois vírus se adaptaram a infectar seres humanos são diferentes — e de maneiras que afetam muito a maneira de lidar com cada uma.

Sobre morcegos e porcos

Como muitas das doenças infecciosas humanas, causadas ou não por vírus, tanto os vírus Influenza quanto os Coronavírus têm origem em outros animais — e na relação da humanidade com estas outras espécies. Parte da tese central do livro de divulgação científica “Armas, Germes e Aço”, de Jared Diamond, é exatamente que a domesticação e concentração de grandes números de animais de criação, como porcos e galinhas, nos colocou em contato com as doenças destes bichos, que, devido ao contato prolongado, foram se adaptando a infectar e se replicar nos nossos organismos. Chamamos as doenças que fazem esse “salto” de outros animais para o ser humano de zoonoses. Esta convivência com os microrganismos causadores de zoonoses teria moldado o sistema imunológico das sociedades humanas que praticavam o pastoreio, que também se adaptaram à maioria destas doenças.

Enquanto vírus da gripe oriundos de porcos e de aves de criação como galinhas já circulam entre seres humanos, com efeitos mais ou menos nocivos, há muitas gerações, o SARS-Cov-2 — nome dado à variante que causa a chamada COVID-19 — é um dos primeiros coronavírus a realizar o salto para a espécie humana. Isso explica o fenômeno de seu espalhamento mais rápido do que o da gripe: enquanto, para se espalhar na população, os vírus Influenza encontram “barreiras”, na forma de pessoas imunizadas pela vacinação ou por já terem adoecido anteriormente por aquele tipo de gripe específico e desenvolvido anticorpos, o Coronavírus não tem essa barreira imunológica.

Outro fator importante que diferencia os coronavírus dos vírus da gripe é o fato de serem primariamente vírus de morcegos. Com o parêntese de que o SARS-Cov-2 parece ter passado por algum outro animal antes de chegar à espécie humana, sofrendo mutações no meio do caminho, sua origem está em populações de morcegos, que são animais com sistemas imunológicos muito peculiares por causa do alto esforço muscular envolvido no voo. Ainda entende-se pouco sobre as diferenças do sistema imunológico do morcego para o de porcos e seres humanos, mas sabe-se que eles adoecem muito pouco por vírus como o SARS-Cov-2. E é provável que o fato dos coronavírus estarem habituados aos sistemas imunológicos “superpoderosos” de espécies de morcego explique seu efeito pronunciado sobre o organismo de seres humanos, com sistemas imunes comparativamente menos proinflamatórios.

Vacinas, moléculas e “tempestades imunológicas”

Quando nos referimos a “pessoas imunizadas”, estamos falando de pessoas que já foram expostas a um patógeno — termo usado para se referir a microrganismos causadores de doenças — específico, sejam inativos na forma de vacinas ou íntegros, quando adoecem e se recuperam. Graças a uma série de mecanismos do sistema imunológico complexo de organismos vertebrados, essas pessoas desenvolveram maneiras de responder rapidamente quando expostas novamente àquele mesmo patógeno. O mais famoso desses mecanismos são os tão falados anticorpos, que conseguem neutralizar patógenos antes do desenvolvimento da doença.

Campanhas de vacinação, como a atual direcionada à gripe, tendem a ser elaboradas com base nos vírus de maior circulação e conter formas inativas ou alguns pedaços de um vírus ou bactéria. Diferentes células do sistema imune das pessoas vacinadas vão processar as moléculas presentes nos preparados de vacinas, e algumas destas células — os chamados linfócitos B e T de memória — altamente específicos para o reconhecimento destas moléculas, irão reter a capacidade de proliferar rapidamente. Em uma nova exposição a patógenos com essas moléculas, essas células terão a capacidade de produzir respostas eficientes e muito mais rápidas do que no primeiro contato, eliminando uma possível infecção antes mesmo de ela se estabelecer.

Essa alta especificidade das células de memória e seus mecanismos — incluindo os anticorpos — é o que faz com que pessoas imunizadas contra a gripe e o resfriado comum não estejam protegidas contra os coronavírus. Mesmo que esses vírus atinjam as mesmas regiões do corpo — trato respiratório superior e pulmões — e causem alguns sintomas parecidos, eles são diferentes. Em origem e em composição. A importância de se produzir uma vacina eficaz e segura contra o SARS-CoV-2 é a de permitir que os sistemas imunes da população mundial “aprendam” a reconhecer o vírus sem ter de passar pela doença. E isso porque a própria resposta imune à primeira infecção parece ser parte do problema.

Algo na diferença entre a imunidade dos seres humanos e a dos morcegos — que se adaptaram aos coronavírus de maneira parecida à adaptação dos seres humanos às doenças de nossos animais de criação — faz com que a doença que causa pouco ou nenhum sintoma grave nos mamíferos voadores seja bastante perigosa ao chegar nos pulmões humanos. Como o causador da COVID-19 se replica rapidamente nas nossas células da mucosa pulmonar, ocorre um processo inflamatório agudo e grave. Sem os anticorpos para neutralizar as partículas do vírus, ele rapidamente infecta um grande número de células, e a própria atuação das células que tentam combater a infecção leva a um maior dano nos tecidos, fibrose pulmonar e um quadro de hiperinflamação também conhecido como “tempestade imunológica”. O sistema imune humano, ao contrário do de morcegos, não consegue controlar ou conviver com o coronavírus.

A ecologia das doenças

A vacina contra o SARS-CoV-2 demorará a estar disponível, pois existe a necessidade de um grande número de testes para que a ciência tenha a certeza de que ela não causará mais mal do que bem. Mas essa não é a única doença de morcegos com potencial para “saltar” para a espécie humana. A chegada do SARS-CoV-2 tem sido apontada por profissionais da epidemiologia e ecologia como um fenômeno relacionado à maior destruição das paisagens naturais.

Com sociedades humanas invadindo cada vez mais o hábitat de outros animais — não só os morcegos — maior o contato entre essas diferentes espécies. E, da mesma forma que seres humanos precisam de cidades e terras cultivadas para sobreviver, os microrganismos que circulam entre as diferentes espécies precisam de hospedeiros. Organismos compatíveis são para os vírus recursos naturais, matéria-prima para que eles continuem existindo.

O fato de seres humanos existirem aos bilhões e ocuparem quase o planeta inteiro, circulando de um país para o outro e adentrando cada vez mais paisagens naturais, torna a nossa espécie um recurso abundante e valioso para aqueles patógenos que, por mutações que ocorrem ao acaso, adquirem a capacidade de nos infectar, e nos tornar contagiosos para outros seres humanos.

Além da importância imediata de ficar em casa para conter o espalhamento da doença, uma vez que ela não possui barreiras na forma de pessoas imunizadas, é importante que a sociedade aprenda a importância de outra atitude: a de refletir melhor sobre a relação milenar da humanidade com outras espécies animais com as quais divide o planeta. Somos mais parecidos com estas outras espécies animais do que um vírus Influenza é com um Coronavírus, pelo menos em termos moleculares. E esse misto de semelhança e diferença nos torna duplamente vulneráveis.

Por Bruno de Sousa Moraes
Bacharel em Microbiologia e Imunologia | Mestre em Ecologia | Especialista em Jornalismo Científico

Referências:
https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1477893920300740?via%3Dihub
https://www.nature.com/articles/s41577-020-0305-6.pdf
https://link.springer.com/content/pdf/10.1007/s13238-010-0029-7.pdf
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4012789/
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3431208/
https://www.nature.com/articles/d41586-019-02757-4
https://www.iucn.org/news/secretariat/202004/iucn-statement-covid-19-pandemic