• Post Author:

Luciane Slomka – psicóloga

Este não é mais um texto sobre as festas de final de ano e sobre a mistura de sentimentos que nos atravessam nesse período. Também não é um texto com a intenção de falar sobre motivação ou esperança, nem mesmo sobre metas ou retrospectivas. É um texto para falar sobre nós e nossa condição humana. Sobre nossas fragilidades e nossa vontade de viver, nossos medos e nossa capacidade de expandir nossos laços, nossas experiências.

Escuto muito no consultório e na vida cotidiana o quanto o Natal gera sentimentos ambíguos. Tristeza, saudades, a necessidade de reuniões de família quando nem sempre temos o desejo ou as condições para tais encontros. Ao mesmo tempo a reunião, as tradições, as fotos, a ceia. O que de fato ocorre é muitas vezes a necessidade de se mostrar bem e grato, mesmo quando nem tudo está tão bem assim.

Minha primeira participação nesse espaço tem o intuito de falar da vida real. De nossos mecanismos de sobrevivência, de como suportamos a dor ou momentos difíceis. O que nos faz persistir mesmo quando tudo parece desmoronar? Ontem eu assisti um episódio de um seriado onde uma avó dizia a uma filha que criar um filho seria como construir um barco. Você os cria para navegar, afastarem-se de você e descobrirem outros mares. Pensei no quanto nosso psiquismo funciona de forma parecida. Somos barcos construídos por nossos pais da melhor maneira que puderam, com partes de madeira mais firme, outras mais frágeis, alguns buracos, certamente. E é com essa estrutura que vamos para a vida e enfrentamos suas belezas mas também suas tormentas. Uma doença grave, ameaçadora, certamente é uma das grandes tempestades. E a forma como nosso barco é equipado pode influenciar na forma como se atravessa essa tempestade. Isso não significa que quem teve madeira pouco resistente irá sucumbir. Pelo contrário. Muitas vezes a tempestade nos faz consertar nossos buracos ao longo do processo, e essa é a beleza da viagem.

Meu trabalho como psicóloga atuando especificamente na área da Psico-Oncologia me mostrou muitas possibilidades de reconstrução. Digo tudo isso porque acredito na função emocional do tempo ser dividido em meses e acreditarmos que ele termina e recomeça novamente. Não sou avessa ao Natal e às festas de final de ano. Pelo contrário. Acho essa nostalgia e essa sensação de possibilidade de recomeço e novos planos extremamente necessária. O que interrogo é o quanto esse período nos faz angustiados por deixar à mostra nossa dificuldade em lidar com conflitos, com separações, com finais. As reuniões familiares expõem as feridas do passado, e o que poderia ser usado como possibilidade de crescimento acaba ganhando uma roupa de discórdia e depressão. Não temos que “fugir da angústia de final de ano” como li no titulo de um artigo. Precisamos perceber que a angústia não mora no final do ano, num tratamento médico ou numa perda. A angústia mora em nós. Vem nos itens de série do barco que somos. Minha convocação é para que tenhamos a coragem de nos despir dessa armadura de coragem, força e esquecimento, e possamos mostrar nossas peles que precisam de toque, carinho e atenção.

Somos seres frágeis, estamos aqui de passagem. Sei que isso não pode ser lembrado a cada instante, do contrário viver seria insuportável. Mas precisamos fazer as pazes com nossas fraquezas e embarcar em 2020 mais conscientes de nossas condições de navegar.