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Texto de Bruno de Sousa Moraes

Bacharel em Microbiologia e Imunologia | Mestre em Ecologia | Especialista em Jornalismo Científico

Existe uma série de fatores que tornam a pandemia de COVID-19 um tanto diferente de outros períodos de grande espalhamento de doenças que a humanidade já enfrentou. Por mais que a globalização cada vez mais acelerada — e “turbinada” pelos meios digitais — contribua para um espalhamento mais rápido do vírus causador da doença, essa mesma globalização, junto com outros avanços, é o que permite que o aprendizado e o combate à doença sejam tão velozes e eficientes. Será que as implicações da pandemia podem mudar as nossas sociedades?

Novamente, a gripe!

No meu último texto aqui no Tummi, conversamos um pouco sobre as diferenças e semelhanças entre a COVID-19 e os vírus Influenza, causadores da gripe. Outro aspecto em que esses dois vírus são comparáveis é o fato de que ambos causaram pandemias importantes na história humana recente. Com aproximadamente 50 milhões de mortos em todo o mundo, a chamada “Gripe Espanhola” de 1918-19 (causada por uma cepa de Influenza A H1N1 anterior à “mais branda” de 2009, que causou 3 mil vezes menos mortes) teve três ondas globais. Isso significa que o vírus se espalhou, infectou e matou um grande número de pessoas, e quase desapareceu, voltando alguns meses depois a se espalhar. E a gripe de 1918 fez isso duas vezes.

Ainda na primeira onda da COVID-19, a ciência já conhece mais sobre o organismo causador da doença do que durante as três ondas da pandemia do início do Século passado. Se em 1918 nem existia ainda o conceito de DNA, tendo sido sequenciado o genoma da Influenza que matou milhões de pessoas apenas em outubro de 2005, uma busca sobre o genoma do SARS-CoV-2 — o coronavírus que causa a pandemia atual — na plataforma busca de artigos científicos “Google Acadêmico” retorna mais de 5 mil resultados.

Felizmente, os avanços da humanidade que levam a essa diferença gritante entre as duas pandemias vêm acompanhados de uma medicina muito mais sofisticada e da comunicação das descobertas e conclusões das pesquisas muito mais rápida e alcançando um número cada vez maior de pessoas. Vêm também com as inovações digitais das últimas décadas, que trazem formas de trabalhar, se entreter, conversar com a família e cuidar da saúde sem precisar sair de casa. A humanidade tem uma grande oportunidade de sair dessa pandemia com um número muito menor de perdas do que as 50 milhões da Influenza. Tem também a oportunidade de aproveitar a estrutura de cooperação global para enfrentar outros problemas que custam milhares de vidas anualmente, como doenças em países emergentes, extrema pobreza e falta de acesso à saúde, saneamento básico e alimentação digna e saudável.

Oportunidade, porém, não é garantia.

Ciência global é ciência universal?

Nunca em uma pandemia tivemos tanta informação sobre o “inimigo” que estávamos enfrentando. Em menos de seis meses desde os primeiros casos relatados em dezembro de 2019, não apenas identificamos o vírus e seu genoma. O esforço científico global, com institutos de orçamento bilionário e pequenos grupos de pesquisa em países em desenvolvimento alimentando uns aos outros com publicações, resultou em diversas conclusões sobre a doença. Cada uma delas com potencial de salvar milhares de vidas. Apenas algumas delas são:

Sabemos como o vírus entra nas células, e temos a composição da proteína “spike” responsável por uma das etapas iniciais da infecção. Isso é importante porque tanto vacinas quanto medicamentos que ajam sobre a proteína, impedindo a entrada nas células, pode impedir o contágio e a progressão da doença;

Sabemos como máscaras de tecido, mesmo sem oferecer a proteção mais adequada proporcionada pelas máscaras PFF2 (ou N95, na norma norte-americana), já diminuem a probabilidade de contágio por diminuir o alcance de gotículas de saliva, muco e outras secreções, além de diminuir a quantidade de partículas virais nessas gotículas.

Até o final de abril, pelo menos 330 ensaios clínicos testando a eficácia de medicamentos diversos no tratamento da doença já estavam em diversas etapas, do recrutamento inicial à análise de resultados.

A humanidade também conseguiu calcular as taxas de infecção do vírus para cada pessoa infectada e, a partir disso, desenhar diferentes estratégias e cenários para conter a infecção em cada país, assim como predições do avanço da doença.

Os caminhos das pesquisas sobre o novo coronavírus são, enfim, muitos, e resultam em muitas respostas aparecendo em pouco tempo. Porém, o impacto dessas respostas na condução de políticas de saúde e nas decisões individuais das bilhões de pessoas do planeta nem sempre segue na direção de salvar vidas. Assim como o Brasil, países como a Bielorrússia e o Turcomenistão ainda não estão dando à pandemia a atenção necessária.

A população brasileira, de uma maneira geral, tem dado indícios de não estar bem-informada dos riscos reais da doença, ou mesmo das maneiras mais corretas de evitá-la. Além do grande número de líderes políticos, influenciadores de opinião, autoridades religiosas e associações civis das mais diversas que pedem o fim do isolamento social, fatos como a não-participação do Brasil — país com 8º maior PIB do mundo, medido por paridade de poder de compra — no fundo internacional para o desenvolvimento da vacina que poderia beneficiar toda a humanidade é, no mínimo, preocupante para nossa imagem internacional. Essa oportunidade perdida pode resultar em uma perda ainda maior: a perda da confiança na ciência, e da chance de construir um país que valoriza sua pesquisa e seus pesquisadores. A perda, enfim, da chance de embarcar de verdade no Século XXI.

Preservando (e continuando a criticar) a ciência

O Século XX não apenas teve uma das maiores pandemias da história, como também duas grandes guerras, a corrida espacial e uma aceleração na inovação tecnológica. Todos estes eventos tiveram impactos sem precedentes no rumo das sociedades. E permeando tudo isso, estava a ciência.

A investigação científica estava por trás do avanço da oncologia e da genética, da descoberta dos antibióticos e de uma expansão impensável da produção de alimentos. Mas ela também estava por trás das armas de maior precisão e poder letal com as quais se lutou a Segunda Guerra Mundial, por trás da bomba nuclear, das armas químicas e da poluição ambiental. E a ciência que, até a metade do Século, era propagandeada por jornalistas e figuras da política e do marketing de forma acrítica começou a ser criticada e questionada.

O processo de “perda da inocência” em relação à capacidade do desenvolvimento científico  de trazer consequências tanto positivas quanto negativas foi importante para que a sociedade — e a própria comunidade científica — começasse a questionar criticamente a ciência produzida. Especialmente levando em conta que a pesquisa, em todo o mundo, tem maior financiamento público do que privado, é um direito das sociedades conhecer e criticar a ciência que financia. E um dever da comunidade científica o de informar a sociedade com transparência sobre seus achados, e sobre as implicações éticas e práticas dos mesmos.

Ainda no Século XX, crescem correntes que se opõem ao consenso científico e propõem teorias que, apesar de muitas vezes acompanhadas por jargão, não se derivam da aplicação de técnicas de teste de hipótese, ou então se baseiam em pressupostos que não têm base real. A teoria de que o planeta Terra seria plano e o movimento anti-vacinação são exemplos, e ambos os movimentos reivindicam que o dinheiro gasto com as pesquisas — espaciais e imunológicas, respectivamente — seria melhor aplicado em outras áreas.

Da mesma forma, cresce no Brasil dos últimos anos a ideia de que nossos centros de pesquisa têm pouca utilidade, e que o orçamento para pesquisa poderia ser aplicado em fins mais nobres. Como no terraplanismo e na ideia de que vacinas causam autismo, não faltam teorias conspiratórias para embasar quem defende que a Universidade pública presta um desserviço, atua mais politicamente do que academicamente e promove práticas consideradas imorais. Essa faceta da  desconfiança da ciência não é comparável ao questionamento dos efeitos de longo prazo da radioatividade que surgiram com o lançamento das bombas atômicas. Não é comparável pelo fato de não se basear em métodos e dados, não ter compromisso com a transparência e não se basear na melhor arma contra os possíveis malefícios da ciência: se nortear por mais pesquisas, para evidenciar os malefícios, entender sua magnitude e desenhar formas de combatê-lo.

Enquanto alguns acreditam que, ao final da pandemia de coronavírus, veremos um aumento da fé das pessoas na confiabilidade da ciência, de especialistas e do método rigoroso através do qual conclusões são derivadas, é possível ver também o processo contrário acontecendo em tempo real. O Brasil não está na contramão das conclusões atuais da ciência apenas quando questiona a letalidade da COVID-19 e pede o fim do isolamento social: existe um forte movimento a favor do uso de medicamentos como a cloroquina e hidroxicloroquina desde antes do final dos primeiros ensaios clínicos. E, mesmo em face dos resultados recentes da Universidade de Albany (EUA), que apontam que nem a hidroxicloroquina e nem a cloroquina reduzem a mortalidade pela doença, as drogas continuam a ser recomendadas por autoridades, e já se estuda a criação de um protocolo de uso de cloroquina para tratar a COVID-19.

A humanidade, através da pesquisa, aprende cada vez mais e cada vez mais rápido sobre o novo coronavírus. Mas se esse conhecimento não é incorporado na tomada de decisões, ele não está orientando a sociedade para o combate mais efetivo à doença, um desperdício que também se contabiliza em casos e fatalidades evitáveis. Também é importante levar em conta que, como uma doença nova, ainda se está aprendendo sobre outros sintomas da COVID-19 que fogem ao quadro respiratório, mais comum. O vírus está sendo detectado em outros tecidos, e ainda não se sabe ao certo as consequências desse espalhamento, por exemplo, para o sistema nervoso central e periférico.

Estimular as pessoas a sair para a rua em nome da economia é, indiretamente, transformá-las em cobaias para a descoberta de efeitos imprevistos da doença. E, mesmo que um maior número de dados sempre ajude o processo de ganhar conhecimento através da ciência, nenhum pesquisador da área de saúde realmente interessado em salvar vidas seria a favor de usar pessoas saudáveis como cobaias involuntárias.

Ainda é cedo para dizer o que vai acontecer realmente, em termos de números de infectados e casos graves. Os modelos preditivos até agora apontam alguns caminhos possíveis, sempre com a cautela de apresentar as grandes faixas de variação possível nos números (por exemplo, as predições mais recentes do HealthData.org — da Universidade de Washington — para o Brasil são de aproximadamente 88.305 mortes até o final da pandemia, mas o número varia entre 30.302 e 193.786 pessoas). Parte do que influencia a incerteza representada nessas faixas amplas de variação é o dinamismo das tomadas de decisão, como decidir por afrouxar o isolamento social antes da hora ou sugerir em pronunciamento que se estude a possibilidade de combater o vírus pelo consumo de desinfetante pelas pessoas, como fez o presidente estadunidense Donald Trump.

Além da variação que toda predição a partir de modelos matemáticos sempre tem, os modelos também são influenciados pelo lado sociológico e político do enfrentamento à COVID-19, nos quais nem sempre as decisões tomadas no “mundo real” são aquelas apontadas pela ciência como as que salvarão mais vidas.

Se a ciência é um direito de todos, defendê-la é um dever. Isso passa por atitudes em várias escalas. Desde apontar alguma informação errada e de fonte não confiável, por exemplo sobre máscaras sendo ruins para a imunidade e proliferando bactérias nas suas redes sociais, até ações maiores. Como se engajar, mesmo que em petições online e consultas legislativas, para que as decisões tomadas pelas autoridades dos três poderes, que elegemos para nos representar e agir no interesse de nossas vidas, continuem preservando essas vidas. E preservando a produção ciência que, quando feita criticamente e com boas intenções, tanto contribui para a economia — que todos queremos salvar — quanto para a melhoria das vidas dessa espécie que, há séculos, resiste a pandemias.

FONTES:

https://www.medigraphic.com/pdfs/revbio/bio-2006/bio061i.pdf
https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0092867420302622
https://www.nature.com/articles/s41591-020-0843-2?ContensisTextOnly=true
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7162641/
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/32299017